
Todas as lágrimas são salgadas. Mas as nossas são mais. Beijar uma das nossas lágrimas, é como sentir os salpicos salgados da água do mar, quando uma onda rebenta mesmo aos nossos pés.
Não somos filhos do mar, mas temos um não-sei-quê de vento salgado que nos roça a pele, o suor e os lábios, como no fim de um dia de praia.
Não somos heróis, mas lutamos cada dia com uma espada de dois gumes; ou somos suficientemente fortes para a equilibrar entre nós e o inimigo, ou acabamos por deixar que seja o inimigo a usá-la contra nós. Não seremos, então, heróis? Talvez mais do que aqueles que usam armas de fogo, mas que são incapazes de saborear um sorriso, um pequeno gesto ou uma réstia de céu. Nós temos a capacidade de distinguir o brilho ou a esperança nas mais pequenas coisas que a vida nos oferece. Portanto, sim, somos heróis.
Então, quem são estes seres raros e impiedosos que nos roubam a normalidade, o ar e a vida?
Não somos diferentes. Quer dizer, não somos iguais aos outros, mas acabamos por ser especiais na nossa diferença: tornamo-nos muito mais humanos. Nós e a aqueles cuja vida foi tocada pela nossa existência. E pela luta árdua e constante, contra essa parede intransponível, fria, brutal e desumana: a Fibrose Quística.
Mesmo que não existam anjos, é assim que somos vistos, quando nos encolhemos sobre nós mesmos, com os braços fininhos a formar umas asas e quando a palidez contorna todos os traços que nos compõem. Aí, nessa altura, somos anjos.
Mesmo assim, os heróis também se despedaçam. E, aos anjos, por vezes, também se lhes quebram as asas. Não deveria ser assim. Não nos deveríamos fragmentar assim, depois das lutas intensas e de todo o valor que damos à vida. E de termos tocado, com a nossa presença, algumas vidas.
No entanto, vale a pena. Pela vida, pelos momentos bons que ainda virão, e pelos maus, que nos ensinam a saborear ainda mais aquilo que de belo a vida nos dá.
(Para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer o outro lado, para aqueles a quem a luta se desvaneceu cedo demais, para todos os que, certamente, neste momento, serão anjos. À Sofia Alves, Carolina, Alexandra, Luís, Teresa e a todos os anónimos que não resistiram à parede intransponível, fria, brutal e desumana. Obrigada por terem alguma vez tocado a minha vida.)